domingo, 23 de maio de 2010

A Folha




  
Nove horas da manhã seguinte a uma noite decadente, de álcool e perversões, longe de casa, longe do meu espaço seguro. Passei pela rua e arranquei uma folha de uma árvore, sem nenhuma intenção maior, apenas arranquei, parei, e comecei a observá-la. Cada detalhe, cada nervura, cada tom de verde.

Enquanto as meninas tomavam café na padaria, me perdi na minha folha, o tempo parou, e meu olhar se prendeu. Na minha cabeça não entendi a existência de algo assim. É vivo, mas não tem alma, não sente, não cria nada. É uma existência estável e insignificante.

Inesperadamente, senti amor.

Não sei por qual motivo, mas passei a admirá-la simplesmente pelo fato de existir. Criamos um vínculo injustificável, e todo meu ser, toda minha existência, meus aspectos, minhas frustrações, meus desejos, tudo deixou de existir naquele momento, naquela folha. Foi como trocar de lugar, como se fosse ela a me observar.

Voltando, percebi que tem tanta coisa a nossa volta e não conseguimos sentir a essência de nada, não nos permitimos amar nada. Tudo passa desapercebido e assim nos tornamos tão ou mais insignificante do que a folha.

Guardei-a comigo, pra que eu não me esqueça desse insight. Eu sei que ela vai murchar, secar e desaparecer, mas continuarei guardando-a, pra me lembrar sempre da lição daquela pequena folha insignificante.

3 comentários:

  1. otimo muito bom, adorei, voc escreve muito bem Lugh

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  2. Leia um livro que chama "o caminho do guerreiro pacífico", tem super a ver com esse texto, vc vai gostar. =)

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  3. ah
    foi um doce te ter como amigo secreto
    olha guarda um canto em Minas que irei por aí esse ano

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